A insegurança ou dúvida natural que incide sobre o escritor no momento de escrever as primeiras linhas, ou mesmo a falácia da inspiração, podem levar à síndrome da página em branco. Também há distrações correndo por fora: Internet, jornais, livros, cinema, vida social e familiar. Mas, sem dúvida, o maior desafio para o escritor brasileiro é escrever nas horas em que não está trabalhando.

Sim, escrever no Brasil só pode ser considerado um trabalho oficial para uns poucos agraciados. A maioria terá que ter um trabalho oficial para sobreviver e, só nas horas vagas, arrumar tempo para escrever. Então, para superar todos os obstáculos enunciados é preciso muita, mas muita disciplina mesmo.

Como estou plenamente de acordo com algo que Vargas Llosa sempre dizia, quando lhe perguntavam sobre inspiração, que o ofício do escritor está mais próximo da obstinação que da iluminação; que escrever exige método, suor, concentração e grande disciplina. Vou contar o tento fazer quase como um mantra:

Escrever todos os dias. Não é fácil! Há dois anos que tento, mas um dia vou conseguir! É fundamental reservar algumas horas por dias para se dedicar a escrever. Stephen King em seu Sobre a Escrita∗ afirmou: "Quando começo a trabalhar em um projeto, não paro e não diminuo o ritmo a menos que seja absolutamente necessário. Quando não escrevo  todos os dias, os personagens começam a apodrecer em minha cabeça – começam a parecer personagens, em vez de gente de verdade." Algo parecido ao que John Steinbeck ("Seis conselhos para escrever"*) é categórico logo nos dois primeiros conselhos: "Escreva o mais livre e rapidamente que possa. Nunca corrija ou reescreva até que esteja terminado. Reescrever durante o processo é, em geral, uma desculpa para não avançar. Além de interferir com a fluidez e o ritmo". E Neil Gaiman, reforça ("Oito conselhos para escrever como um gênio"∗): "1. Escreva; 2. Escreva uma palavra após a outra. Logo, busca a palavra perfeita e escreva embaixo; 3. Termina o que estás escrevendo. Seja o que for, apenas concentre-se em finalizar; (...)"

Usar um timer. Chuck Palahniuk ("Treze conselhos para escrever"**), trata da importância de usar um cronômetro para determinar um tempo mínimo para escrever diariamente. Segundo ele, se você pegar o ritmo, seguirá em frente mesmo depois de soar o alarme. E se a inspiração não aparecer você ao menos trabalhou um pouco.

Fugir das distrações. A pior delas é a internet, pois nos leva a um auto-engano: "fazer pesquisa para o livro".

Sair de casa. Se eu conseguisse trabalhar em casa eu ganharia tempo e economizaria dinheiro gasto em cafés. Mas em casa, quando surge alguma dificuldade, é muito tentador ir fazer qualquer outra coisa "mais importante". Portanto, sempre procuro escrever em cafés e nunca esqueço os fones de ouvidos.

Enfim, Escrever diariamente! Sem procrastinação!

* Sobre a escrita: a arte em memórias. Trad. Micheil Teixeira - 1a ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

** Cómo escribir. consejos sobre escritura. Buenos Aires: China Editorial, 2016.