Quem busca ficção policial em outros países sabe que não é paranoia. Basta observar o espaço destinado à literatura policial lá e por aqui. Ou verificar a quantidade de prêmios e conferências nessa área na Europa ou Estados Unidos. Desconfio que os que não apreciam esse gênero já virão com uma resposta na ponta da língua: não é desprezo, mas a baixa qualidade da referida literatura! Como a boa e a má literatura estão presentes em todos os gêneros, talvez seja melhor buscar outra explicação.

Vamos esquecer o Brasil por uns instantes e buscar essa percepção em outras partes do mundo. Pergunte a um leitor mediano, se ele conhece em seu respectivo país algum escritor de ficção policial que seja bastante conhecido. Por exemplo: na Espanha, Manuel Vásquez Montalban; na França, Pierre Lamaitre; Itália, Andrea Camilleri; em Cuba, Leonardo Padura; na Suécia, Henning Mankell, Stieg Larsson. Nem precisamos perguntar sobre a Inglaterra e os Estados Unidos por razões óbvias! E no Brasil? Alguém diria Rubem Fonseca, com o seu advogado Mandrake. Mas desconfio que ele foi mais lido por quem não aprecia o romance policial. Também creio que seus fãs correrão para dizer que ele não é um autor de ficção policial.

Bem diferente do Brasil, a França não torce o nariz para o romance policial. Em 2014, 20 milhões de exemplares de romance policial foram vendidos na França. Isso significa que para cada cinco livros vendidos em território francês, mais de um, é ficção policial. É o segundo gênero de romance mais vendido na França[1]. Em 2015 a França consumiu 17,7 milhões de romances policiais. A 12ª. Edição do Salão de Lyon de literatura policial de 2015 (Quai du Polar), reuniu mais de 70.000 visitantes[2].

Com esses números não pretendo atribuir valor a algo só porque vende muito. Estou falando de um gênero que já tem quase um século e meio e que arregimentou milhares de fãs em todo o planeta. Um gênero que foi a porta de entrada para a literatura, principalmente através de Conan Doyle e Agatha Christie, para muitos leitores brasileiros.

 Vejamos o caso da nossa vizinha Argentina, com população alfabetizada muito mais cedo que nós, e que teve seus primeiros romances policiais publicados em 1877, antes das primeiras traduções de Edgar Allan Poe (1884).

E a Escandinávia? Qual o peso que a ficção policial tem por aquelas bandas? Sugiro que perguntem em qualquer grande livraria brasileira quais os cinco escritores escandinavos mais vendidos. Depois verifique quantos são escritores de ficção policial.

Estados Unidos e Reino Unido? Como dito acima, seria demasiado óbvio relatar o quanto a literatura policial é apreciada nos lugares onde ela foi inventada e reinventada.

Do exposto acima poderia extrair ao menos três hipóteses sobre a ficção policial no Brasil: o leitor brasileiro é muito mais crítico que os leitores estrangeiros; os autores brasileiros são mais medíocres que os demais escritores; ou, a crítica brasileira trata a questão com um desmedido preconceito.

Creio que já poderíamos descartar a primeira hipótese ao considerarmos que quanto mais lemos, mais somos capazes de julgar e criticar. E o leitor brasileiro está entre os níveis mais baixos de leitura. A segunda também cairia por terra ao observarmos que Luiz Alfredo Garcia-Roza ganhou o Prêmio Jabuti com sua primeira ficção policial (O Silêncio da chuva); Patrícia Melo ganhou o Prêmio Jabuti em 2001 (Inferno), o Deutscher Krimi Preis (1998 – O Matador) e, na França ganhou o Prix Deux Océans, de reconhecimento à literatura da América Latina.

Talvez a terceira hipótese seja realmente a mais forte para explicar esse fenômeno. E quando falo em crítica não quero me referir apenas aos críticos literários, mas aos editores, às livrarias, à imprensa, aos acadêmicos. Parece que a literatura policial foi colocada no porão dos livros “menores” ou “não-literatura”. Já ouvi algo como: é literatura de entretenimento! (ler escritores clássicos, para mim, também é entretenimento! Mas talvez eles queiram dizer, entretenimento vazio, superficial, cheio de clichês. Mas aí vem outro problema, se alguém escrever um livro policial (que trata de um crime ou mistério que vai sendo elucidado ao longo da narrativa), mas, contrariando a maioria, evita o abuso de clichês e escreve de forma densa, profunda e interessante. O que ocorrerá? Escutaremos: óbvio que não é um romance policial! Enfim, se for ruim, é policial, se for bom, é literatura geral.

Seria o caso de nos perguntarmos se essa postura é benéfica para a literatura brasileira. Será que esse tipo de crítica ajuda elevar o nível da nossa literatura? Infelizmente não! Ao tratar o gênero policial como subgênero, inferior e desprestigiado, impossibilitamos o desenvolvimento dessa literatura no Brasil. A consequência, não é transferência de leitores para uma literatura mais profunda e respeitada, mas o predomínio da literatura policial estrangeira. A que mais vender lá fora, independente da qualidade.  

O curioso é que esse fenômeno também ocorre em Portugal:

“Tengo la convicción de que, sobre todo cuando se la compara con la de otros países europeos, no existe una escuela o corriente original de literatura policíaca oriunda de Portugal. (…) podemos afirmar que la novela negra en Portugal, a pesar de los esfuerzos y de la popularización de su consumo en versión nacional y también en versión traducida, aún es un género repudiado en muchos ámbitos: está desprestigiado desde el punto de vista académico; faltan colecciones, una apuesta editorial y una mayor visibilidad para los títulos que se publican, y sobretodo falta que los autores que hacen incursiones puntuales apuesten definitivamente por la novela negra y tengan una continuidad en su trayectoria.[3]

Resolver escrever ficção policial nesse cenário certamente pode parecer loucura, mas considerando que a posição do Brasil e Portugal é claramente oposta à da América do Norte e Europa, maiores mercados editoriais do planeta, melhor apostar que são os nossos críticos que estão equivocados.

 

[1] https://www.franceinter.fr/culture/dans-l-edition-le-polar-tient-bon

[2] http://www.leparisien.fr/espace-premium/culture-loisirs/carton-plein-pour-le-polar-01-04-2016-5676041.php

[3] La novela negra contemporánea en Portugal, ¿un género repudiado? (BEARN – Revista de Cultura – por Sebastia Bennasar - https://revistabearn.com/2015/06/02/la-novela-negra-contemporanea-en-portugal-un-genero-repudiado/