“Eis um Bukowski puro-sangue. Legítimo. Concluído alguns meses antes de sua morte, em março de 1994, aos 73 anos.

Não há como sair incólume desta história. A saga de Nick Belane poderia até ser igual a de tantos outros detetives de segunda categoria que perambulam pelas largas ruas de Los Angeles. (...)

Ele desfia sua história com habilidade de mestre. Um Rabelais percorrendo o mundo noir? A divina sujeira? A maravilhosa sordidez? Um acerto de contas com a arte? Uma homenagem? Uma reflexão sobre o fim da vida? E tomara que a morte estivesse linda, gostosa e sexy – como está nesta história – quando encontrou o velho Bulk poucos meses depois de ter posto o ponto final nesta pequena obra-prima.”

Este foi o último livro de Bukowski. E, nos momentos finais da vida ele resolveu escrever um romance policial. Poderia dizer que foi uma sátira aos romances policiais, mas Bukowski satirizava tudo, principalmente, a vida. Então, prefiro simplesmente dizer: Bukowski escrevendo uma ficção policial. Ou melhor, Bukowski homenageando o gênero Pulp (revistas de ficção, barata, para o grande público).

Quem gosta do autor, meu caso, vai gostar de Pulp, embora, confesso que não concordo com a citação acima (“puro-sangue... legítimo”). Li com menos entusiasmo que outras obras dele. Talvez por estar buscando um romance policial tradicional, talvez por Bukowski ser melhor quando escreve suas desgraças autobiográficas.

Nesse livro, Bukowski substitui o tradicional protagonista Henry Chinaski, pelo detetive particular Nick Belane. Os nomes mudam, mas o fracasso ou a miséria existencial dos personagens é quase a mesma. Como não poderia faltar, os palavrões, a bebida e as mulheres também estão presentes, mas de forma mais discreta que em suas outras obras.

Quem não conhece o autor pode estranhar, acha-lo rude, grosseiro ou mesmo vulgar. Mas acreditem, foi o Bukowski mais comedido que já vi.

Prefiro não fazer um pequeno resumo dessa história, pois ficará tão confuso (se eu tivesse lido um resumo, não teria lido o livro) que vão pensar que eu escrevi drogado.

Quem busca um romance policial tradicional, fuja desse livrinho maldito. Para quem quer conhecer Bukowski, esse não é um bom começo. Sugiro começar por Misto quente; Cartas na rua; Mulheres; Notas de um velho safado; Factótum; O amor é um cão dos diabos...

Enfim, creio que esse é um Bukowski para os fãs verem o velho safado brincando e homenageando o gênero policial pulp ou noir. Ver Bukowski criando a sua versão dos detetives Marlowe ou Spade.